sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Onde está o dinheiro? Para onde vai?

O Vale do Silício concentra a maior parte dos investimentos em venture capital dos EUA - Sand Hill Road reúne a maior quantidade de venture capital firms por quilômetro no mundo. Ou melhor, por milha.
O volume de investimentos em venture nos EUA tem subido bastante em anos recentes e o volume investido dobrou entre 2013 e 2015. Mas como em outras áreas da economia (e da vida) é a China que muda o jogo - é o país que mais cresce em número de deals e capital comprometido. 
Quer saber quem são os principais players? Confira esta lista. Ou acredite nos dados e na representatividade de uma das associações chinesas de VC/PE - veja a lista e tire suas conclusões. 
O volume de dinheiro tem aumentado ao redor do mundo, mas os recursos são aplicados majoritariamente em software. Não necessariamente para criar os produtos e as empresas que o mundo precisa, em áreas como alimentos, saneamento, energia, habitação. A lacuna no financiamento da inovação hard é um tema recorrente. Esta edição da MIT Tech Review traz um conjunto de pequenos artigos sobre o financiamento da inovação, como parte de um caderno especial sobre o assunto. 
O dinheiro está nos EUA e, cada vez mais, na China. Vai para software - e algumas outras coisas. Mas isso não resolve os problemas que temos, especialmente um dos mais prementes deles: a mudança do clima. Com ela, a coisa poderá ficar quente de verdade... e eu não estou falando da temperatura do ar.
Precisamos acelerar as inovações em tecnologias limpas. É isso ao que se propõe a mission innovation, iniciativa lançada pelos altos mandatários (o canadense se destaca...) durante a COP21. Do lado privado, Bill Gates e cia. lançaram uma coalizão de investidores e mega empreendedores, pensada para fazer venture capital com perspectiva de longo prazo (e paciência), investindo em eventuais tecnologias limpas que venham a resultar dos investimentos governamentais em pesquisa.
Dá tempo de mudar o jogo? A chamada de capa da revista diz para não ficarmos em pânico. Mas vale colocar as barbas de molho - onde há água, certo?. Os clima muda e os conflitos afloram - a coisa fica quente mesmo. Faz-me lembrar um velho e bom filme do Spike Lee. Val assistir... no conforto do ar condicionado.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Sistema operacional

"Que país é este", perguntava a música da Legião Urbana. É o Brasil. É o Brasil que construímos a cada dia - todos nós. É o Brasil que aceitamos. É o Brasil com o qual somos complacentes.
Atingimos o nosso limite institucional, penso eu com os meus botões e as teclas do meu notebook, longe do calor de Pindorama. Com as instituições que estão aí, chegaremos onde já estamos. É pouco, muito pouco.
As instituições são o sistema operacional de uma sociedade. O nosso sistema operacional, em construção há séculos e cheio de remendos, deu GPF, a tela ficou azul... o problema é que não há como dar boot no País.
Este livro é escrito por autores que tem posição clara: são contra o governo e o partido que está no poder. Já eram contra em 2014, quando foi lançado, antes da deterioração da situação econômica e do quadro político em 2015. Sempre foram. Estando claro isso, é uma ótima provocação sobre nós mesmos. 
Aceitamos nos pautar por baixos padrões de desempenho, somos complacentes. Apaixonados por nós mesmos, esquecemos de olhar o mundo - que avança. Somos prisioneiros da aliança do atraso com o obscurantismo, forjada há 500 anos. Somos prisioneiros do passado. Somos prisioneiros do nosso modo de ver o mundo.
Sérgio Buarque de Holanda certa vez disse que "a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós [brasileiros]". Já é tempo. Ainda dá tempo? Será que é melhor deixar pra lá? Tá bom assim, né? Ou será que não? Seremos sempre complacentes?

29 anos

Escrevo este blog de forma despretenciosa - divirto-me procurando coisas diversas na web e juntando as pecinhas em linhas não muito elaboradas, ajuda-me a organizar ideias, talvez tenha até algum tipo comunicação truncada e de mão única com alguém. Tem alguém aí? 
Blogs já são obsoletos nos dias de hoje, blogs como este são coisa do passado. Dentro de 29 anos restarão apenas ruínas digitais da blogosfera. Mas o que surgirá de novidade nos próximos 29 anos? Muita coisa! Coisas que eu, você e a maioria neste planeta nem imagina. 
Muita coisa acontece em 29 anos. Você lembra de 1987? Michael Jackson lançou Bad, teve crise na bolsa, o Prozac foi lançado comercialmente - muito apropriado para quem investia em ações. Foi também o ano quando a Apple lançou o Macintosh II, o seu primeiro modelo com display colorido! Isso mesmo... existiam computadores que não era em cores antes... até mesmo sem display... e uns poucos anos antes, nem computadores existiam. Em 1987, nesta época do ano, eu passava veraneio na casa de praia de um querido amigo, no charmoso litoral gaúcho. Preparava-me para fazer vestibular.
O que acontecerá nos próximos 29 anos? Muita coisa!
Até hoje, a inteligência e a capacidade de processamento disponíveis no mundo são limitadas. Em 29 anos, prevê Ray Kurzweill, estaremos conectados, humanos e "máquinas", e teremos a disposição algoritmos e máquinas capazes de pensar, criar e fazer coisas hoje muito além do que somos capazes. A inteligência não será um limitante para a humanidade, possivelmente nem os limites da vida. Chegaremos à singularidade, transcenderemos os limites que hoje temos, emergirá uma nova realidade.
Será que tudo isso irá acontecer? Sonho? Delírio? Leia o livro e tire suas conclusões. Anote o prazo: 29 anos. Confira no futuro... ou peça para o seu avatar, robô ou exocérebro fazerem. 

sábado, 23 de janeiro de 2016

Somos todos iguais... pero no mucho!

Thomas Piketty jogou (muita) lenha na fogueira com o seu "Capital no Século XXI". Economistas, cientistas sociais, políticos, burocratas, jornalistas, curiosos e pitaqueiros de plantão, ricos e pobres - ficaram todos alvoroçados.
Mais do que agitar, chamou a atenção para uma questão chave para o mundo contemporâneo: a desigualdade. À obra de Piketty, seguiram-se debates, TED talks, papers, entrevistas, conversas, artigos, panfletos, reportagens etc. E chegamos a este número da Foreign Affairs.
Existem diferentes perspectivas e argumentos relativos à desigualdade - filosóficos, morais, econômicos - à favor e contra maiores níveis de igualdade econômica. Como quase tudo na vida, a melhor resposta está em algum ponto entre os extremos da igualdade total e da extrema desigualdade. Qual é o ponto? Cada sociedade tem que encontrar a sua resposta. Mas temos pistas importantes.
Tomemos o exemplo do País que mais nitidamente simboliza o capitalismo contemporâneo: the United States of America. Em um dos textos da FA, Danielle Allen escreve: "...many of the founders [como dizem os americanos, os "founding fathers" da nação] understood the achievement of political liberty to require some meaningful degree of economic equality"; mais à frente, continua: "...equality and liberty were understood to reinforce each other...". Em resumo: algum nível de igualdade é preciso para criar dinâmicas virtuosas no capitalismo. Elementos desse raciocínio se fizeram presentes na colonização - não realizada por aristocratas, oligarcas e cortesões (como ocorreu em Pindorama), na criação do modelo socioeconômico da produção em massa, no New Deal, na emergência de uma sociedade de classe média após a 2a Guerra Mundial. Mas o quadro mudou.
Os Estados Unidos de hoje vê minguar a sua classe média e debate a desigualdade com afinco - aliás, tudo se debate nos EUA, à exaustão e de forma muito sofisticada. Por que o tema está em pauta? Porque um mercado de massas precisa de consumidores. Porque a coesão social depende de um certo nível de igualdade. Porque o aumento da desigualdade econômica pode significar o enfraquecimento do "sonho americano". Porque a desigualdade econômica pode significar uma crescente desigualdade de oportunidades e, quando isso ocorre, todos perdem - imagine quantos "Albert Einstens" e "Steve Jobs" nasceram no Brasil e não prosperaram por falta de oportunidade e não geraram uma riqueza que é tão necessária. Porque o modelo social americano dependeu de uma classe média forte.
Piketty mostra que a desigualdade aumentou nos EUA e que esse aumento esteve concentrado na ponta - os que ganham mais passaram a ganhar muito, muito mais. Outro dia desses encontrei no Facebook um gráfico interessante, que reflete um pouco o que aconteceu nos EUA: até 1980 o crescimento da produtividade era acompanhado de um crescimento mais ou menos proporcional dos salários. Em outras palavras, eficiência se traduzia diretamente em mais dinheiro no bolso de quem trabalha. A partir de 1980 deixou de ser assim.
Apesar dos pesares, e de toda a desigualdade, o fato é que, ao redor do mundo, hoje vivemos muito melhor do que antes, muito melhor do que em 1980 - nos EUA e ao redor do mundo. As pessoas vivem mais e com mais saúde, tem acesso a bens e serviços como nunca antes e cada vez menos gente vive na pobrezaPeter Diamandis costuma dizer e escrever que estamos migrando de um mundo "dos que tem e os que não tem" e para um mundo "dos que tem e os que tem muito" - ou seja, um mundo onde onde cada qual terá o mínimo necessário para poder trilhar seus próprios caminhos, desenvolver e realizar seu potencial. De fato, a tecnologia parece abrir essa possibilidade, mas a transição não será fácil, nem está garantida - dependerá dos sistemas humanos, das instituições, das políticas e das escolhas que fazemos e fizermos. 
Manter a coesão social é fator crítico para realizarmos essa transição sem catástrofes. Será um desafio ainda maior nestes tempos de 4a Revolução Industrial, migração em massa e outras transformações.
Desigualdade é tema mundial, com sotaques e cores diferentes em cada canto do planeta, com mais ou menos tecnologia. É questão de vida e, literalmente, de morte em muitos lugares ao sul do Equador. Infelizmente, nós dos trópicos ainda não experimentamos o que os do norte no geral já alcançaram. Vivemos em sociedades que a cada dia dão mostras do esgarçamento social em cada sinal de trânsito.
Analisando outro livro de PikettyPaul Krugman comenta no NYT sobre o risco dos EUA retornarem a um tipo de "capitalismo patrimonialista". Ah... que inveja! "Retornar", esse é o termo usado pelo professor de Princeton. Quem dera tivéssemos superado esse estágio na Terra de Macunaíma. Quem dera tivéssemos saído do capitalismo patrimonialista
Como sair? A resposta não é fácil e os caminhos tortuosos do Brasil não parecer auspiciosos no curto prazo. Como então reduzir a desigualdade? A mesma Foreign Affairs que inspirou este post destaca o breakthrough daquele que foi denominado pelo The New York Times "...likely the most important government anti-poverty program the world has ever seen...", o brasileiro Bolsa Família. Sob várias óticas e métricas, o programa é um sucesso - para ser claro: nem tudo são louros, precisamos mais e há áreas nas quais fizemos pouco progresso. O caminho será longo. Em um lugar que ainda carrega forte traços feudais como o Brasil, as barreiras da pobreza são inúmeras, nem sempre visíveis, nem sempre econômicas, muitas vezes sutis, talvez intransponíveis.
Um artigo recente na HBR aponta que níveis menores de desigualdades levam a mais felicidade. Eu entendo: todos queremos "pertencer", nenhum de nós quer ser "excluído" - do time, do grupo descolado e de 'gente bonita' na escola, da festa, de uma vida com oportunidades e bem estar. Quando desigualdade econômica se traduz em extratos sociais que não se reconhecem como iguais, menores são as possibilidades de mobilidade social e menor é o nível geral de felicidade.
Oxalá o sonho americano possa ser a realidade de mais gente ao sul - se frente à lei somos iguais, tomara que nas oportunidades sejamos menos desiguais. A partir daí, será com cada um correr para chegar na frente. 
Lembro de escutar lá no fim do Brasil, de onde vim: "isso é coisa de rico". Ah... e como é difícil vocês querer (pode?) coisa de rico quando você não é rico. Para o sonho americano ser o sonho de todos, precisaremos não só de novas estruturas, regras, programas... mas também de muito mais empatia. A boa notícia é que isso tem o potencial de deixar todos mais felizes.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O dia a dia de todos nós


Quanto custa para girar a máquina que faz o dinheiro girar? Nos EUA, em média, cerca de 2% de cada transação com cartões de crédito. É menos do que em Pindorama, mas certamente rende muito dinheiro. Quer mais detalhes sobre taxas? Veja a tabela de taxas da Mastercard.
A indústria de meios de pagamento é uma das que será transformada pela tecnologia - já está sendo. Mais do que isso, o dinheiro será e está sendo transformado pela tecnologia. 
A Suécia tem a sociedade mais sem dinheiro do mundo, a que menos utiliza moeda em espécie e que também vê rarearem os cartões de crédito. Mas não só os países ricos experimentam essa mudança - o Kenya é um exemplo conhecido internacionalmente de adoção de uma 'moeda digital móvel' e tem o modelo lá desenvolvido sendo exportado para outros países na África e Ásia.
Pagando em dinheiro vivo, você efetua uma transação diretamente com fornecedor daquilo que você está comprando. Os meios de pagamentos eletrônicos baseados em cartões botam um monte de gente no circuito - bancos, empresas emissoras cartões, empresas que processam os pagamentos, fornecedores de seguro, empresas de telecomunicações, data centers etc. Com moedas digitais e novos modelos de sistemas de pagamentos, todo esse pessoal pode desaparecer. Eis aí a grande novidade: é possível fazer transações de forma direta, sem dinheiro vivo, sem intermediários, sem taxas, sem um sistema central de processamento. 
Redes móveis, novas estruturas de dados e algoritmos - como aquele que viabiliza o blockchain - estão por detrás dessa revolução. Essas mesmas tecnologias podem habilitar mudanças em várias outras indústrias e, acima de tudo, na vida pública. 
Imagine se as propriedades fossem todas registradas de forma digital, transacionadas no celular, sem cartórios... imagine se documentos não precisassem de autenticação e carimbos... imagine se você tivesse um único registro pessoal, que valesse para fins fiscais, de saúde, de trabalho, eleitorais, bancários e sei lá mais o quê! Aliás, por que existem tantas identidades? Por que cada um de nós é solicitado a levar cópias autenticadas de nossos documentos para órgão do governo - o mesmo governo que os emitiu?
O dia a dia de cada um de nós poderia ser muito mais simples do que é. Por que não é? Eu aposto os meus bitcoins que a restrição não está associada à tecnologia. 
Este relatório do Aspen Institute é um bom exemplo de um "diálogo que importa". Conversas desse tipo - e organizações que as promovem - fazem falta no Brasil. São peças importantes na construção das ideias que fazem as sociedades irem em frente, rumo ao futuro. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Parla!

Já li muitos livros de negócios e coisas assemelhadas. Poucos são de fato relevantes. Pouquíssimos são bem escritos. Ínfimos são aqueles que podem fazer diferença para a sua carreira!
Este é um deles. 

Follow the money!

As discussões estão quentes em Paris neste início de dezembro. Quiçá um caminho seja encontrado com a nova proposta de acordo. Precisamos de um novo acordo sobre o clima e, mais do que isso, de soluções concretas. Precisarão cada vez mais, nosso filhos, netos e os que vierem depois.
Eu sei, não deu praia no Rio de Janeiro neste domingo... mas o mundo está cada vez mais quente. Alguns lugares poderão em breve se tornar inabitáveis.
40% da população global vive até 100km do mar. Imagine os impactos do aquecimento global nas vidas de toda essa gente e de todos os outros - para onde você acha que o pessoal que mora na praia irá quando o mar subir? O que irão comer? Onde irão morar? Em qual cama irão dormir? Que água irão beber? 
Pensou? Talvez seja a hora. Os impactos para todos serão enormes. Imagine quantas disputas, conflitos e guerras poderão ser ocasionadas por uma migração maciça de pessoas rumo às partes mais altas do planeta. A matemática é simples: 40% da população mundial = ~3 bilhões de pessoas. É gente pra caramba.
Esta edição da National Geographic informa que número de eventos catastróficos aumentou de 291, em 1980, para 904 no ano passado. Os custos derivados - infraestrutura, vidas perdidas, saúde etc. - são enormes. Os países avançados talvez até possam absorvê-los, mas aqueles em desenvolvimento não. Serão esses os mais impactados com a perda de safras e a diminuição da produção agrícola que poderá decorrer das mudanças no clima. Quem tem pouco o que comer poderá ter ainda menos.
Há saída? Há poucos dias foram anunciadas duas importantes iniciativas voltadas ao desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias para energias limpas: a Mission Innovation e a Breakthrough Energy Coalition. A solução para a questão do clima depende de novas tecnologias e modelos de negócios, inovação e investimento. Para salvar o planeta e a pele dos seus descendentes, follow the money!

Vale investir!

Até quando?

"Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será, que será, que será
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?"
(Caetano Veloso, "Podres Poderes", 1984)

Os tiranos se foram. Viva! Viva! Mas ainda estamos longe de nos livrar da incompetência na América Católica. 
Na América Católica que fala Português a coisa está feia. É um problema sistêmico - somos todos responsáveis e estamos todos envolvidos. Nossa sociedade se mostra incapaz de ir em frente. Ficamos e vivemos presos nos falsos dilemas e prisioneiros de velhas estruturas. Até quando?
Enquanto isso, o mundo avança!
Vale a pena eu, você, nós... pensarmos a respeito.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Risoto & outros prazeres (quase) ultrapasados

Cheguei em casa hoje com fome, ainda zonzo pelo jet lag. Por sorte, meu amor preparou o jantar, pois não tenho um feixe de átomos para cozinhar pra mim. 
Vem aí o tempo no qual superaremos muitos dos limites que hoje experimentamos. O risoto quentinho e saboroso será montado átomo a átomo... e você nem precisará ler este post, pois teremos formas muito melhores de fazer o input de informações nas nossas mentes.
Se lá chegar, dar-me-ei ao luxo de conservar alguns velhos hábitos. Um deles será ler coisas divertidas e inteligentes, como as aventuras de Jean Le Flambeur.

Estamos preparados?

Eu venho de um lugar que decaiu... muito. Não chega a ser Youngtown, até porque, salvo o processamento de alimentos e de commodities da agropecuária, nunca teve indústria de verdade. Endosso totalmente a ideia apresentada na abertura da matéria de capa desta edição da The Atlantic: um debacle econômico gera graves consequências sociais e psicológicas - nos planos coletivo e social. 
Será que estamos preparados para viver uma era sem empregos? Muitas das profissões e dos empregos que estão aí não terão sentido em um futuro próximo. E daí? O debate está aberto.
Não é por acaso que o assunto foi capa de três publicações muito conhecidas nestas últimas semanas. Além da The Atlantica, a MIT Tech Review e a Foreign Affairs trouxeram matérias importantes sobre robôs, emprego e o futuro do trabalho.
O trabalho e o emprego irão mudar muito. Não necessariamente terminarão, mas passarão por grandes transformações e a vida será afetada em inúmeros aspectos. Viveremos em um mundo de diferenças ainda maiores. Será preciso pensar em novas soluções para que possamos ter coesão social, estabilidade emocional, sentido para a vida. 
Ao que parece, deixar tudo para o mercado resolver será muito arriscado. Há o risco do mercado ser autofágico: sem emprego e renda, quem irá comprar? Há o riso da ruptura social: como segurar a massa sem emprego e com fome e raiva? Uma ideia que tem ressurgido na comunidade techie (americana, em especial) e em outros círculos é a da universalização da renda básica. Será preciso muita conversa para chegar a uma solução e ela não será simples.
Essas transformações terão muito a dizer aos países, não só as pessoas. A situação será difícil para os que buscam um lugar ao sol na economia/ordem mundial. Dependeremos cada vez mais de máquinas e algoritmos e a riqueza mundial tenderá a estar concentrada naqueles que tiverem capacidade de inovar e se posicionar nas novas indústrias que estão a nascer e florecer.
Recomendo que pensemos... com nossos botões, colegas, amigos, representantes... estamos preparados?

Homs encontra Florença

Há poucos dias li um post sobre o pai biológico do Steve Jobs. Nascido na Síria, foi morar nos EUA na década de 1950. 
A busca desesperada de um lugar seguro para viver, um mínimo de dignidade e oportunidades para uma vida melhor tem gerado manchetes nestes dias - no geral tristes e ilustrativas de uma ordem mundial falida, algumas animadoras em relação à humanidade.
Por linhas muito tortas, essa triste história ajuda a lembrar que o lugar mais dinâmico e criativo do mundo hoje é habitado por gente de todo o mundo, de todos os cantos, cores e credos.
Uma edição recente da The Economist chamou o Silicon Valley da Florença moderna. O paralelo com a Renascença Européia é direto. O "Vale" é o lugar onde muitas das pessoas que pensam e criam coisas, produtos, conceitos, empresas inovadora querem viver, estar, trabalhar. Metade da força de trabalho no "Vale" é composta por imigrantes: a Florença do Século XXI tem muito a ver com Homs, São Petesburgo, Joinville, Xangai, Goiânia, Helsinque, Nantes, Monterrey... 
Por necessidade ou vontade, gente do mundo todo muda de casa, país, cidade... E o mundo fica melhor, mais humano, criativo, próspero... com essa mistura toda. Pense nisso.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Cardápio

Quer viver bem e de forma saudável? 
Por enquanto, "tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo", cantava o Walter Franco (escute a música). Faltou algo: o cardápio saudável - assumindo-se que exercício é pressuposto para se manter a espinha ereta (na minha idade, não estou tão certo) e portanto já faz parte do pacote anterior.
Pacote completo, mas não totalmente suficiente. O DNA e o tempo são implacáveis... Por enquanto! Isso irá mudar (muito mesmo) nos próximos anos. 
Na esteira da aceleração das transformações tecnológicas, a medicina é dos campos que passará por algumas das mais visíveis mudanças. Aliás, é o que o Craig Venter disse neste início de junho a uma turma de formandos na UC San Diego. Confira o papo.
Você pensa em estudar medicina? Prepare-se! Muita coisa vai mudar e é melhor você estudar muita matemática e estatística.
Para os curiosos, hipocondríacos e health geeks wannabes (e life hackers) esta 'revistinha' da BBC (por sinal, eless tem um ótimo site sobre futuro & tecnologia) apresenta um bom cardápio. 
Enquanto o futuro não chega, trate de manter... a mente quieta, a espinha ereta, o coração tranquilo e o cardápio saudável.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Protótipo

Você já leu Guimarães Rosa? Quais livros?
Eu li poucos, gostei muito - mais de uns do que de outros. Aqui escrevi animado pela minha obra favorita. Mas digo: conheço pouco, mesmo.
Neste ano conheci uma coleção de contos, logo do início da carreira. Os textos parecem apenas protótipos quando comparados às obras posteriores.
Foi bom saber. Gostei - percebi os limites, reconheci traços, reafirmei uma ideia. Recomendo ler.
Antes da grande obra - resultado mais da transpiração do que da inspiração - há o texto "mais ou menos". É um caminho. É preciso caminhar o caminho. E isso custa. Ah, como custa.

Weltanschauung: lá e aqui

Até que ponto compreendemos "o outro"? Até que ponto o aceitamos? Até que ponto podemos aceitar?
E se as crenças fundamentais do "outro" forem essencialmente diferentes das nossas, o que fazer? O que faremos?
O mundo é um lugar cada vez mais complexo. Século XXI e Idade Média convivem, em vários planos, em distintas geografias. Estamos prontos (humanidade, o Brasil, cada um de nós) para lidar com isso?
reportagem da The Atlantic sobre o ISIS é um bom (ótimo) retrato sobre os limites impostos pela visão de mundo predominante no ocidente. Compreender o ISIS não é tarefa trivial. Requer a revisão de pressupostos essenciais sobre o mundo, a vida, o sentido das coisas, a jornada da humanidade.
Mas não nos enganemos... nem tudo que é arcaico acontece em algum lugar distante e empoeirado do outro lado do planeta. Também o Brasil do Século XXI convive com a idade média. Você acha que não sentado aí no seu ar-condicionado para os dias de calor (em tempo, o meu está muito confortável)? Leia algumas histórias sobre o nosso Brasil ainda cheio de preconceito, ignorância, truculência, violência e escravidão.
Se queremos (o Brasil, os brasileiros) ser atores globais (queremos?), teremos que avançar em nosso próprio esforço civilizatório e, ao mesmo tempo, formar gente e criar estruturas para dar conta da complexidade do mundo de hoje, que mistura contemporaneidade e arcaísmo. Precisamos de gente que conheça Alepo, fale árabe, chinês, hindi e farsi, compreenda história, esteja pronta para discutir o ISIS, veja o mundo para além do nosso umbigo brazuca... Será que estamos preparados?
Compreender o outro passa por compreender a nós mesmos e nossos limites.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Passado, presente, futuro....

2015 começou com mudanças. Você viu? Percebeu? 
Sentados sob o sol (ou na sombra, com uma cervejinha do lado, melhor ainda...) em nossa América Católica talvez pouco percebamos acerca das grandes transformações em curso no planeta. Talvez sejamos apenas a exceção em uma ordem maior que se desenha - ou que foi desenhada há muito, como pensam alguns. Oxalá não!
Além do horizonte existe muita gente, gente pra caramba - com vontade de empreender, comer, comprar, viajar, ganhar dinheiro, educar os filhos, beber, estudar... Gente que compreende e opera o mundo de uma outra forma, com outra dimensão de tempo, com uma lógica de ação própria.
Henry Kissinger é uma das figuras mais controversas do nosso tempo - já foi mais, especialmente na conturbada décadas de 1970. É um intelectual de alto gabarito e foi ator e observador de algumas das grandes decisões e transformações das últimas décadas. Sua leitura "On China" é rica, super informada e envolvente, concorde-se ou não com ele. Ignorá-lo não vale! 

Já é lugar comum dizer que este é o século da Ásia. Ao que tudo indica, teremos nosso futuro inexoravelmente conectado ao que acontece e acontecerá por lá. 
Vale começar a estudar e pensar sobre como tratar as relações com quem dá as cartas do outro lado do mundo (e cada vez mais perto de nós). Só assim poderemos melhor entender o contexto do século XXI (e dos séculos XX e XXII, dentre muitos outros).

Welcome to... 2014!

Muitas previsões, muito papo sobre o futuro... mas o futuro já está aqui, em algum lugar próximo, talvez dobrando a esquina, talvez a 12 horas de vôo. 
O mundo existe em camadas, diferentes eras coexistem. É engraçado ver que as coisas que são o futuro na grande mídia já são novidades envelhecidas em alguma lugares - Londres, Vale do Silício, Tsukuba, Tel Aviv, Boston, Shangai e outros hotspots que aparecem com frequência em listas de cidades inovadoras.
Muitas das novidades de alta tecnologia apresentadas nesta edição da Sciences et Avenir não são tão novas assim. Estão mais para 2013 do que para 2015 (mas isso é o que eu acho, alguém mais antenado poderá dizer que estão mais para 1993...). Mas a história da sonda Rosetta vale a leitura, a revista e muita, muita coisa mais.
A jornada de 10 anos desde o lançamento da Rosetta em 2004 é só uma parte história. A ideia surgiu décadas antes. Imagine o esforço, o tempo, a paciência, a perseverança e a resiliência que precisaram ter os caras que fizeram esse projeto acontecer. 
Para construir o futuro é preciso começar no passado, ter saco, energia, fôlego e muita transpiração. 2014 foi um ano que mostrou que isso vale a pena. 
Nossa jornada no espaço está apenas começando. Que venham muitas outras Rosettas por aí em 2015 e além. Ad astra

domingo, 23 de novembro de 2014

As coisas que ninguém vê

Você já leu o New York Times? E o Times de Londres? Ok... eu também gosto mais do Guardian, é mais combativo, mas próximo do que penso - acho que cada um de nós acaba lendo o que está mais próximo do que pensa/acredita e, com isso, fechando-se um pouco mais no que pensa/acredita; faço um bom esforço para ler coisas diferentes, abrir os horizontes. Continuando a lista... e o Le Monde? E o Asahi Shimbun (site novo em inglês: aqui)? E o Corriere Della Sera? Opa... aí também já é demais!
Qual é o ponto? Todos esses jornais, com a exceção do Corriere, não tem uma seção de "economia". Como contraste, dê uma olhada nos diários brasileiros: a indefectível seção de economia está sempre lá!
E daí? E daí que somos obcecados por economia. Mais do que isso, o senso comum em nosso País diz que a economia é uma ciência exata (hard science), enquanto é discutível se essa é ou não uma ciência
Micro e macro são diferentes. No nível micro não há como pensar, estudar e 'trabalhar' a economia sem considerar gestão e estratégia (e as decisões, preferências, comportamentos...). No macro, economia e política se misturam de uma forma quase inseparável.
Quando assumimos que a economia é uma ciência tal como a física ou a química corremos um enorme risco. No Brasil cotidiano, somos prisioneiros dessa visão simplista, simplificadora, pobre, cheia de interesses subliminares e tributária da ignorância geral.
A edição de quase um ano atrás da Foreign Affairs trouxe várias matérias sobre as coisas que não vemos e conformam a vida e o mundo no qual vivemos. A matéria de capa é sobre biologia e DNA - coisinha pequena e enrolada que guarda as informações sobre como 'construir' quaisquer e todos os seres vivos. Mas há também um ensaio muito interessante sobre os sistemas bancários nos EUA, Inglaterra, Canadá e Escócia.
Mais do que qualquer questão econômica ou qualquer explicação a partir das 'ciências econômicas', foram a política, os jogos de interesses e as correlações de forças nessas sociedades que conformaram o funcionamento e o desempenho dos seus sistemas bancários. São as coisas que não vemos... ou pior, que não queremos ver! 
Em resumo: it's the political game, stupid!

sábado, 22 de novembro de 2014

Danados

Não sei quem é mais danado... o Maldaner ou o Wunibaldo!
Mas o livro é danado de bom! Isso eu sei.
Angustia (muito) por vezes, enerva, faz rir, emociona, faz suspense, faz graça.

Chegou...

Não é o cara correndo na foto de capa quem chegou. O 'futurou' chegou à (quase) grande mídia, saiu das publicações científicas e dos círculos restritos de iniciados - geeks, nerds, cientistas e outros tipos.
A Info Exame de Outubro de 2014 (eles disponibilizam as revistas online com uma defasagem de meses em relação às bancas) tem várias matérias que vão além do se encontrava na revista há alguns anos - software & computadores. Há muita sobre medicina, impressão 3D, quantified self (veja aqui um bom site a respeito)...  
Na virada do Século XIX para o Século XX a expectativa de vida no Brasil era de cerca de 35 anos; repito: 35 anos. Hoje passa dos 73 anos. Imagine o que virá por aí. Imagine quem viverá por aí!
Quem viver verá! Chegará lá... no futuro.


domingo, 19 de outubro de 2014

Y todo se cayó...

Daniel Guebel é um desses portenhos... 
São mestres da escrita nervosa, irônica, sarcástica, reflexiva, neurótica, dolorida, tensa. Tudo ao mesmo tempo agora.
Coisas que o fim trás.
Recomendo, recomeçar. Viver. Ler. Aprender.


Vida no escritório

Onde você quer trabalhar? Confira aqui algumas opções. Gostou de alguma?
Com certeza o design afeta a performance. Mas não é só isso... a forma como organizamos e gerimos espaços e organizações tem muito a dizer. 
Como quase tudo na vida (tudo?), variedade e diversidade de espaços dentro de uma organização são importantes. É o tema central da HBR deste outubro. 
Qual é o seu ecossistema bicho de escritório?
Escolha bem!

Vale quanto pesa?

Hoje fiz alguns exercícios na Khan Academy, foi divertido. Esse é apenas um dos inúmeros novos modelos de 'educação' disponíveis na rede e no mundo real. Há muita coisa nova.
Uma das novidades é o Minerva Project, que lançou a sua primeira turma neste ano, com estudantes de dezenas de países. Há um brasileiro, Guilherme.
São todas experiências a ficar de olho... muita coisa nova acontecerá com a aplicação de tecnologia da informação, com o avanço do conhecimento sobre como aprendemos, com as transformações no mundo do trabalho etc.
Mas, enquanto isso, por aqui em Pindorama (mas não só....), temos questões prementes a resolver - se não fizermos ficaremos no passado: qualificar a educação em todos os níveis e qualificar os professores. São dois temas tratados na edição de setembro de 2014 da The Atlantic, para o caso dos EUA, evidentemente.
Por aqui a coisa é um pouco mais complexa (acho). A questão mais crítica no momento é aumentar a qualidade do ensino fundamental e do médio. Não será fácil.
Temos professores do ensino fundamental que ganham pouco, são precariamente qualificados, enfrentam condições adversas de trabalho, muitas vezes não tem acesso a oportunidades de formação... Quem escolhe ser professor? Nessas condições, quem sobra.... quem tem boa formação prefere seguir outras profissões. Fazemos uma 'seleção ao contrário': com os sistemas de incentivos existentes, selecionamos no Brasil os 'menos aptos' para seguirem carreira no sistema de educação, em especial no público, mas não só.
Mas há avanços...  o Fundeb foi regulamentado, já está em funcionamento, e permite ao Governo Federal apoiar estados e municípios (que tem a responsabilidade constitucional pela educação fundamental e média). Sem isso, muitos estados e municípios não conseguiriam pagar salários que atendam ao piso salarial nacional e, apesar dessa ajuda, muitos ainda não pagam. O 'buraco' da educação é mais embaixo por aqui...
No ensino universitário, avançamos muito em matrículas, sem contar o envio de estudantes aos exterior. O número de matriculados no ensino superior cresceu mais de 150% nos últimos 10 anos. É um avanço, mas ainda pouco frente ao que o País precisa. E existem problemas de qualidade. 
A The Atlantic chama a atenção para a 'picaretagem' que é a educação fornecida por algumas (muitas?) faculdades de direito nos EUA. E no Brasil? Será que o seu título vale o que você pagou na 'universidade' da esquina?
A tecnologia poderá mudar muita coisa. A transição até uma nova realidade ainda nos põe enormes desafios pela frente. Vale pensar a respeito (em especial nestes dias de eleições). 


domingo, 17 de agosto de 2014

Política

Como será que faremos política no futuro? Como será a participação dos robôs? Como nos sentiremos discutindo com eles nossas preferências, ideias, prioridades, interesses, vontades....? Faremos isso?
Bem, antes disso, teremos que nos resolver entre nós.
Jogo difícil, meus caros humanos. Necessário!
O Asimov combinava de forma ímpar conhecimento científico com criatividade e uma aguçada sensibilidade para as 'questões humanas'. Precisaremos de um pouco disso para construir uma ponte com um futuro melhor, mais justo, livre e humano.

Stylish industrial policy

A trilha sonora da Rádio Monocle 24 é das melhores que conheço, contemporânea, descolada, global, com qualidade. 
Escuto bastante rádio, acho que é hábito de gente velha (eu), não? Com certeza é influência do meu pai e da 'cultura de rádio' do RS. Não tenho elementos factuais suficientes, mas acho que tem várias particularidades em relação ao resto do Brasil.
Bem... se rádio é coisa antiga, a Monocle não tem nada disso. É uma das publicações mais descoladas que existem. Mistura design, moda, tecnologia, negócios, política internacional, tendências, maluquices, novidades, consumo, comportamento, vida digital, viagem etc. etc.
Esta edição tem uma matéria sobre a 'nova onda' da manufatura em setores tradicionais da indústria, como confecções, móveis, têxteis. São exemplos originados em diferentes países, na maioria emergentes (p.ex. Turquia) ou aqueles menos avançados (p.ex. Portugal) que integram blocos poderosos como a União Européia. Todas as iniciativas tem um traço comum: o foco na geração de valor agregado, diferenciação de produtos, inovação, aplicação intensiva de conhecimento aos processos industriais. 
Não há segredo! Há novidade? 
Sim, há uma olhar renovado sobre o tema política industrial ao redor do planeta. Muito além de proteção de mercado e substituição de importações, as versões modernas estão mais para políticas de desenvolvimento de capacitações (em ciência e tecnologia, negócios internacionais, empreendedorismo...); confundem-se com outras políticas e, muitas vezes, não são captadas pelos analistas. Todos os países, dos EUA à Europa, praticam políticas dessa natureza. Isso, é claro, sem mencionar a China - veja o exemplo na Monocle do que está sendo feito em Xi'an - e isso é só um grão de areia no deserto.
Resumo: política industrial pode ser stylish também!
De volta à música... não tenho saco para 'festas dos anos 80', quero mais é que venham os anos 2020, 2030... que venha o futuro, quero escutar a música que vem por aí! 
Que venham as indústrias do futuro!


PS: o grande desafio que temos no Brasil é institucional... isso ficou muito claro na série 'Diálogos de Competitividade'. Essa edição da Monocle tem exemplos de 'inovações no governo' - vale ficar de olho, por exemplo, na Estonia. Por que não temos uma estratégia realmente agressiva de governo digital no Brasil e criamos oportunidades de desenvolvimento tecnológico a partir disso? 

domingo, 3 de agosto de 2014

Ignorância

Faz tempo que li "A História Universal da Infâmia". Adorei! Sempre gostei de contos e crônicas. Talvez seja a minha companheira ansiedade que tenha moldado tal predileção. 
Mas li pouco Borges. Que falha! 
Tenho que confessar (pra mim mesmo): nunca li Poe. Tinha algum livro de sua autoria em casa na infância, mas não lembro qual. 
Do gênero que o Poe inventou, li muitos e muitos da Agatha Christie, preferindo sempre as histórias do Hercule Poirot àquelas de seus outros detetives. 
O bom deste livro do Verissimo é que ele me mostra o tamanho da minha ignorância. Nem preciso de investigação para saber!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Alemanha 7 x 1 Brasil

Foi-se a Copa do Mundo… terminou! Foi divertida, não acharam? Mas ficamos com o gosto amargo da goleada imposta pelos teutônicos. 
Não acompanho muito futebol (nenhum esporte, aliás), só em momento particulares, como o quando o Grêmio está nas fases finais da Libertadores e Copa do Brasil tem chances de ganhar o Campeonato Brasileiro. Você já percebeu, né? Faz tempo mesmo que não acompanho nada! Apesar disso, acho fantásticas as histórias sobre como um grupo de pessoas se supera ou simplesmente ‘desmorona’ e perde totalmente o rumo (usando um palavreado em voga há poucas semanas: “tem uma pane”) em um evento esportivo. Foi o que aconteceu com o time brasileiro no fatídico 8 de julho.
Esse acontecimento provavelmente irá render muito. Muitos estudos, livros, filmes, entrevistas, contos, teses de mestrado e doutorado, sonhos, delírios, análises aprofundadas e rasteiras, projetos, debates, patrocínios, dinheiro... Interesso-me pela psicologia coletiva, os aspectos táticos futebolísticos deixo para quem entende (deve existir alguém...), pois nada sei. Mas não só os aspectos psicológicos e táticos explicam o ocorrido.
Na Alemanha, a polícia mata 6 pessoas a cada ano. No Brasil, são 5 pessoas mortas pela polícia por dia. Este é um assunto bem mais sério que o futebol. É algo vital! Por definição.
De onde vem essa diferença? O que a explica?
Não há explicação simples. Quem buscar ou professar uma já começará perdendo o jogo. Misturam-se questões como ambiente social, instituições, formação e qualificação dos profissionais de segurança, condições materiais, regramento do funcionamento (compras, contratações...) do setor público, política e políticas, funcionamento do judiciário.... e por aí vai; é uma longa catilinária. Tudo está misturado, conectado, trata-se de um sistema complexo. Esse é o ponto chave do livro do Mariano Beltrame: não há solução mágica, não existe bala de prata, não existem salvadores da pátria, não há ‘a resposta’. Ponto! Bingo!
A polícia brasileira é ruim, muito ruim. Mas está melhorando! Existem bons e maus policiais. Existem unidades profissionais (poucas) e amadoras (muitas). Aliás... esse é um tema central: amadorismo. Essa é uma questão de fundo para a polícia, o futebol, o funcionamento do governo, a produtividade das empresas... O jogo Brasil versus Alemanha revela muito sobre como se organizam nossa sociedade e nossas instituições, como gerimos as nossas organizações.
Somos amadores porque nos falta método! Falta-nos método porque nos falta conhecimento! Falta-nos conhecimento porque faltam visão de mundo, referenciais internacionais e recursos! E tudo isso falta porque vontade, coragem, poder e conhecimento raramente andam juntos... e aí o sistema se torna auto recursivo.
A mudança não vem por mágica. Ocorre por partes, muitas vezes em pequenas doses. Exige liderança esclarecida (com conhecimento) e determinada, honestidade e humildade – porque errar e aprender é a regra do jogo, em qualquer coisa nova que se faz. Não existem soluções mágicas!
Não existem soluções mágicas para o futebol. Não é o treinados Fulano ou o dirigente Beltrano que vai salvar o jogo. No campo da segurança é tudo ainda mais complexo, bem mais.
Não sou um especialista em segurança. Também não me sinto capaz de avaliar as UPPs, nem quero fazê-lo ou vejo qualquer sentido nisso. Aliás, as UPPs são apenas um instrumento, um experimento, não um modelo de gestão da segurança, jamais “a solução”. Mas fico feliz em saber que há esperança, que existe gente lúcida, com uma visão orientada para um processo de mudança de longo prazo, ciente da complexidade da questão, da necessidade de se realizar dificílimas e enormes mudanças institucionais (reformar o judiciário, unificar polícias civil e militar...). Eu já achava que o Beltrame era um sujeito corajoso, pelo que vejo na mídia. 
Bem... e o que tudo isso tem a ver com Alemanha e o vexame da seleção brasileira (alguém discorda que se deva grafar com letras minúsculas o nome desse timeco)? O que mudou a história pessoal e profissional do Mariano Beltrame foi eu engajamento no primeiro grupo na Polícia Federal que começou a trabalhar com investigações estruturadas de longo prazo (as chamadas ‘operações’), com método e inteligência. Esse grupo rompeu com o amadorismo. De onde veio a ideia ou aprenderam a fazer isso? Em um treinamento sobre investigações policiais realizado na Alemanha!
Quer conhecer as estatísticas policiais da terra do Manuel NeuerVeja aqui!

Brasil urgente

A disputa do Século XXI é a disputa pelo conhecimento, disse certa vez o ‘Pepe Mujica’, em seu discurso de posse como presidente do Senado do Uruguay. Já escrevi isso em algum dos posts deste blog. Torno-me repetitivo. Preciso ler e estudar coisas novas!
Só os países que construírem e controlarem ativos de conhecimento relevantes terão um lugar ao sol no futuro. Os demais, mesmo que avancem e cresçam economicamente, jamais poderão oferecer as mesmas condições de vida aos seus habitantes que os líderes em conhecimento. Ah... não há problema se os líderes estiverem localizados muito ao norte, a 'renda de monopólio' que seus ativos de conhecimento lhes proporcionará (já proporciona) permitirá que venham passar longas férias (como já fazem) por aqui, nos trópicos!
O caminho da sofisticação econômica passa pela formação e manutenção de um contingente de pessoas qualificadas e de alto desempenho. Até hoje, a educação universitária era o (quase) único caminho para que isso fosse possível. Não será mais assim!
Estudei sempre em escolas públicas, em todos os níveis de formação pessoal. Na cerimônia de graduação em Engenharia da minha turma na UFRGS, há muitos anos, fiz questão de valorizar o caráter público e gratuito das universidades federais – estudei em uma delas. Hoje, acredito que o modelo dessas organizações não tem futuro. Ou a universidade pública brasileira se reinventa ou perderá totalmente a sua relevância; talvez morra.
O mundo sabe que educação é chave. Sempre soube. Os que estão à frente sempre apostaram nisso e seu sucesso se deve, em muito (muito, muito mesmo...), ao capital humano. Você está careca de ler a respeito na mídia, de saber. Já escrevi aqui um, dois, três, quatro posts a respeito. Muita gente infinitamente mais relevante já escreveu inúmeras e melhores coisas a respeito. O que mudou então?
Temos cada vez mais pessoas que cursaram e cursam educação superior no Brasil. Muitas e muitas delas com formação pra lá de duvidosa. Não é raro encontrar alguém que busca ascender socialmente e investe em um curso superior ‘picareta’, que ao término só deixa a dúvida: “por que não consigo emprego na minha área de formação”? Lamento pessoas... você foram enganados!
Ao mesmo tempo, criaram-se várias novas universidades federais no Brasil, de norte a sul. Terão elas todas a mesma qualidade? É evidente que não! Precisaremos de todas elas no futuro? Não sei dizer. É razoável existir uma carreia única para todas essas instituições? Acho que não. Elas cumprem a função que deveriam na sociedade? Compreendo que ainda estão distantes. 
É preciso compreender o que se passa, pensar e agir!
Vale você ler a matéria de capa desta edição da The Economist e pensar no que a mudança que está se processando na educação universitária quer (quererá) dizer para o Brasil. Use o que você aprendeu (espero) na escola.

As coisas que guardamos...

...seguem conosco para o resto de nossas vidas, queiramos ou não. Saibamos ou não.  Elas estão lá. 
Lembrar e chorar pode ser uma boa estratégia. Esconder não vai funcionar cara pálida (final de contas, ninguém consegue ficar bronzeado no inverno de Viena)! Recomento!
Agora acho que vou lá reler o Gaia Ciência, com outros olhos, um pouco embaçados, mas mais tranquilos.

#imaginanaindia

A hashtag #imaginanacopa foi super utilizada em posts no Facebook, Twitter, Instagram etc. antes da Copa do Mundo de 2014. Lembra? 
Entre o preto e o branco existem infinitos tons de cinza! Adoro esta frase, tomei-a emprestada de um amigo, genial intelectual - ele, não o que aqui escreve. Faltaram matizes nas análises sobre a Copa do Mundo 2014! Tudo foi muito exagerado. Sobrou pessimismo, superficialidade nas análises, preconceito, ignorância, politicagem, pancadaria da grossa, ufanismo, obtusidade e por aí vai. Foi!
É claro que o Brasil tem e teve muitos problemas, enormes mazelas. Não resolvemos elas antes da Copa. Demoraremos a resolvê-las. Reconheço, com tristeza. São os limites da nossa própria sociedade, daquilo que escolhemos e fazemos coletivamente. É uma enorme ingenuidade (ou maldade...) supor que resolveríamos esses problemas antes da Copa, nem o PSTU e o PCO teriam acreditado, mesmo que a tal ‘revolução’ já tivesse chegado.
É evidente que a Copa do Mundo 2014 teve problemas, muitas coisas não ficaram prontas, no geral obras viárias, e ocorreram erros. São evidências da falta de coordenação e capacidade técnica de órgãos de governos municipais, estaduais e federal. Como uma triste lembrança disso, temos o fato de que, nas duas sedes das semifinais, São Paulo e Belo Horizonte, ruíram obras viárias. Tragédias e amadorismo brasileiro no seu ‘melhor estilo’!
Francamente, não sei qual foi/será o impacto econômico da Copa 2014, vi algumas avaliações, exageradas para um lado ou outro, pareceram-me. Também não sei se fez sentido ou não termos 12 cidades sedes. Pelo que os números indicam, recuperar o investimento feito em infraestruturas dedicadas ao futebol (estádios e centros de treinamento) será muito, muito, muito difícil (se não impossível) em várias dessas localidades. 
Mas talvez existam outros benefícios... por exemplo: qual será o significado da Copa para Cuiabá quando analisado no futuro? Talvez tenha valido a pena levar jogos e pessoas de diferentes países para lá, talvez seja uma forma de conectar a cidade com o mundo, um modo de “colocar o bode na sala” - ou melhor “colocar  o bode no estádio”, instigar à mudança. Talvez não tenha sido nada disso. Só espero que o gramado não seja utilizado apenas pelos bodes no futuro. 
Tendo a crer que só o futuro irá dizer se, para cada cidade, a Copa foi um sucesso, um fracasso ou algo no meio do caminho. Dependerá mais do que está por vir e não do que já passou! Pense nisso quando você escolher nas próximas eleições! O que vem por aí? Quem vem por aí?
Que fique claro: acho que o evento foi um sucesso enorme, mas planejamos e executamos muito mal a sua preparação. Gastamos mais do precisaríamos gastar. Fomos pouco eficientes. É um reflexo do nosso ambiente institucional. Este é o Brasil que todos nós fazemos a cada dia. Todos nós.
Repetindo... É claro que o Brasil tem e teve muitos problemas, enormes mazelas. Não resolvemos elas antes da Copa. Demoraremos a resolvê-las. Reconheço, com tristeza.
Mas será que temos tantos problemas assim? Somos tão ruins mesmo? Para além dos fatos, falta-nos baliza, exageramos. Acho que temos uma enorme tendência a falar mal de nós mesmos sem sequer conhecer a realidade dos outros.
Esta edição da The Economist, da época da posse do novo primeiro ministro da Índia (uma edição mais recente já cobra resultados...), Narendra Modi, joga luz em alguns ‘desafios’ daquele País: 90% dos empregos são informais, a agricultura é feudal, a maior parte dos trabalhadores na indústria labuta em ‘fábricas’ sem energia elétrica, somente 3% da população paga imposto de renda, 600 milhões defecam ao ar livre...
Pense nisso na próxima vez em que ler no jornal que a Índia cresce mais do que o Brasil (para ficar claro: não tenho dúvidas de que o Brasil precisa crescer mais e mais rápido!) e que por essa razão nós vamos mal. Considere também adotar uma nova hashtag; tenho uma sugestão: #imaginanaindia!
O Brasil é um País ‘no meio do caminho’. Está atrás daqueles que oferecem boas condições de vida para a maior parte de sua população, tem sérios problemas, precisa avançar muito na sua institucionalidade, modernizar-se, conectar-se com o mundo, tornar-se mais próspero, justo e igualitário.
Mas não se deixe enganar... estamos à frente de outros, resolvemos há muito problemas que eles nem sonham em equacionar, somos referência para muitos que nos vem de fora, somos muitas vezes melhores aos olhos dos outros do que aos nossos próprios.
Entre o preto e o branco existem infinitos tons de cinza! Se temos que avançar, com velocidade (é preciso ter sentido de urgência), é fato que outros tem desafios bem maiores que os nossos. 
Vale imaginar como é na Índia!
#imaginanaindia